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Branding · Noticia

“Nossa história não precisa ser linear para ser extraordinária”: Ana Cristina Simões transformou rupturas pessoais em liderança e hoje conduz o legado global da marca Ayrton Senna

Ana Cristina, CMO da Senna Brands, fala sobre reconstrução profissional, liderança feminina e o desafio de ocupar espaços em mercados ainda masculinos

Maria Fernanda (Mafê)
Maria Fernanda (Mafê)
Editora chefe (mCMOs) e co-Founder (Eco PR)
“Nossa história não precisa ser linear para ser extraordinária”: Ana Cristina Simões transformou rupturas pessoais em liderança e hoje conduz o legado global da marca Ayrton Senna
Síntese do artigo:
Reconstrução que virou liderança

Ana Cristina Simões transformou rupturas pessoais e profissionais — incluindo divórcio e perda da própria empresa — em uma reconstrução de carreira que a levou à liderança global da Senna Brands.

Branding como construção de significado

A executiva defende que branding vai além da comunicação e deve atuar como construção de significado, cultura e conexão emocional entre marcas e pessoas.

Os desafios silenciosos da liderança feminina

Ao longo da trajetória, enfrentou episódios explícitos de machismo e ambientes tóxicos em mercados historicamente masculinos, como importação, automobilismo e esporte.

A nova fase global da marca Senna

Na Senna Brands, lidera um movimento de reconexão cultural da marca Ayrton Senna com novas gerações, ampliando presença global e relevância emocional da marca.

Liderar sem perder humanidade

Para Ana Cristina, liderança feminina não precisa reproduzir modelos masculinos de poder: é possível liderar com firmeza, humanidade, sensibilidade e autenticidade.

Existe uma frase que Ana Cristina repete ao longo da conversa: “na época achei que era o fim. Hoje entendo que foi um recomeço”. A fala resume não apenas uma virada de carreira, mas a reconstrução completa de uma trajetória que passou por empreendedorismo, colapso societário, divórcio, recomeço profissional e, anos depois, a liderança de uma das marcas mais emblemáticas do esporte mundial.

Hoje CMO da Senna Brands, empresa responsável pela gestão global do grupo Ayrton Senna, responsável pelas marcas Senna e Senninha, Ana Cristina chegou ao cargo depois de uma trajetória pouco convencional para os padrões do mercado corporativo.

Formada em Propaganda e Marketing, com pós-graduação na área, iniciou a carreira passando por diferentes universos da comunicação e branding, incluindo estúdios de fotografia, emissora de TV, a empresa Telefônica e também a Getty Images, onde foi promovida após licença maternidade - antes mesmo de empreender. Mas foi fora do ambiente corporativo tradicional que construiu a maior parte da própria formação executiva.

Ainda em uma posição consolidada no mercado, decidiu empreender. Fundou uma empresa de importação que, ao longo de uma década, se transformou em uma das principais do país em seu segmento. Liderava negociações internacionais, expansão comercial, branding, operação e distribuição. “No começo eu fazia tudo. Cheguei a atender clientes usando nomes diferentes para parecer uma empresa maior”, relembra.

Foi nesse período que consolidou sua visão sobre construção de marca.

Sempre enxerguei branding muito além de comunicação. Marca é construção de significado, cultura e conexão emocional.

Ana Cristina Simões - CMO na Senna Brands

Ruptura pessoal e profissional

O principal ponto de virada veio perto dos 40 anos. Ao mesmo tempo em que enfrentava um divórcio após quase duas décadas de relacionamento, Ana Cristina viveu conflitos societários que culminaram na perda da empresa que havia construído durante dez anos. “Perdi praticamente minha identidade profissional naquele momento”, recorda.

A executiva conta que foi justamente durante esse período de ruptura que começou a se aproximar do terceiro setor. Passou a atuar em projetos voluntários e iniciativas ligadas a ONGs, movimento que acabou conectando sua trajetória a lideranças do Instituto Ayrton Senna.

“Não existia nenhuma oportunidade profissional envolvida. Foi uma relação construída muito mais em torno de propósito, impacto e visão de liderança”, diz.

Depois disso, assumiu a área de marketing e trade marketing da Sestini, liderando um processo de reposicionamento da marca. Anos mais tarde, foi lembrada para integrar a nova fase de expansão internacional da Senna Brands. Primeiro na área de negócios e, posteriormente, como CMO.

Liderança feminina ainda exige prova constante

Ao falar sobre os desafios da carreira, Ana Cristina afirma que ocupar posições de liderança ainda significa, para muitas mulheres, precisar provar competência o tempo inteiro.

Ela relata episódios explícitos de machismo em negociações internacionais.

“Já aconteceu de fornecedores na China se recusarem a negociar comigo por eu ser mulher. Todas as perguntas eram direcionadas aos homens presentes, mesmo quando eu era a responsável pela decisão”.

Ana Cristina Simões - CMO na Senna Brands

Mas, segundo ela, os desafios mais difíceis costumam ser os silenciosos. “Existe uma cobrança constante sobre postura, emoção, maternidade, aparência e comportamento. Como se competência sozinha nunca bastasse”, afirma.

A executiva também relata ter enfrentado situações de assédio e ambientes tóxicos ao longo da carreira, incluindo um desligamento após não aceitar uma situação de assédio. Grande parte da sua trajetória aconteceu em mercados historicamente masculinos, como importação, automobilismo e esporte. “Muitas vezes a mulher entra nesses espaços já preparada para ser subestimada”, esclarece.

Ainda assim, diz nunca ter acreditado que precisaria reproduzir modelos masculinos de liderança para conquistar respeito.

“Durante muito tempo parecia que a liderança feminina só seria aceita se fosse mais dura, fria e agressiva. Aprendi que minha força estava justamente na capacidade de construir relações, cultura e tomar decisões difíceis sem perder a humanidade."

Ana Cristina Simões - CMO na Senna Brands

Reconexão cultural da marca Senna

Há três anos na liderança de marketing da Senna Brands, Ana Cristina acompanha uma nova fase de expansão global da marca. Segundo ela, a empresa multiplicou de tamanho nos últimos anos e vive um movimento de reconexão cultural com novas gerações. “Ver jovens falando novamente sobre Senna e perceber a marca ocupando espaços globais relevantes de novo é algo muito poderoso”, reflete. Para a executiva, o papel do marketing hoje vai além da comunicação tradicional. “Marketing só faz sentido quando gera impacto real, quando movimenta cultura, comunidade, emoção e negócio ao mesmo tempo.”

Ao olhar para a própria trajetória, Ana Cristina diz que sua principal conquista talvez não esteja ligada aos cargos ou empresas pelas quais passou, mas à capacidade de reconstrução. “Perder uma empresa, um casamento e uma identidade profissional quase ao mesmo tempo poderia ter me paralisado. Hoje entendo que algumas rupturas não destroem a nossa história. Elas impedem que ela fique pequena demais.”

Sobre o futuro da liderança feminina, ela acredita que ainda existe uma diferença importante de confiança e oportunidade entre homens e mulheres dentro das empresas. “Muitas mulheres extremamente competentes ainda esperam se sentir 100% prontas para ocupar espaços de liderança. Enquanto isso, homens ocupam esses espaços muitas vezes com menos preparo, mas mais convicção.”

O legado que gostaria de deixar passa justamente por ampliar essa percepção. “Quero mostrar que é possível construir uma liderança forte sem perder sensibilidade, humanidade e verdade. E principalmente mostrar para outras mulheres que recomeçar é possível em qualquer fase da vida”. A executiva ainda conclui que “a nossa história não precisa ser linear para ser extraordinária.”

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