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Opinião · Coluna

"Quando cheguei ao topo, descobri que ele ainda não era feito para mulheres", diz CMO da OMODA & JAECOO Brasil

À frente do marketing de uma das maiores marcas de carros elétricos, Alessandra Souza defende que o maior desafio das mulheres na liderança já não é conquistar espaço, mas transformá-lo para que ele realmente pertença a quem chega.

Maria Fernanda (Mafê)
Maria Fernanda (Mafê)
Editora chefe (mCMOs) e co-Founder (Eco PR)
"Quando cheguei ao topo, descobri que ele ainda não era feito para mulheres", diz CMO da OMODA & JAECOO Brasil
Síntese do artigo:
Chegar ao topo não basta

O próximo desafio é transformar esses lugares para que outras mulheres possam chegar, permanecer e liderar sem precisar deixar parte de quem são do lado de fora.

Ela não foi formada para ser CMO

Uma carreira que mostra como repertório, visão estratégica e conhecimento da operação podem ser tão importantes quanto uma trajetória tradicional de Marketing.

Liderar sem se adaptar

Para Alessandra, mulheres não precisam aprender a liderar como homens para ocupar espaços de poder. Precisam ter espaço para construir suas próprias formas de liderança.

Por que algumas mulheres ainda precisam provar antes de falar?

A pergunta deixa de ser apenas quantas mulheres chegaram ao topo — e passa a ser o que acontece quando elas chegam lá.

Liderar o lançamento e o posicionamento de duas novas montadoras em um dos mercados automotivos mais competitivos do mundo exige estratégia, capacidade de adaptação e profundo conhecimento do negócio. É justamente essa combinação que levou Alessandra Souza ao cargo de Chief Marketing Officer (CMO) da OMODA & JAECOO Brasil, onde conduz a estratégia de marca e a entrada das fabricantes chinesas no mercado brasileiro.

A posição representa mais um capítulo de uma trajetória construída ao longo de mais de 24 anos na indústria automotiva. Antes de assumir o desafio na OMODA & JAECOO, Alessandra passou por empresas como Peugeot, PSA e Stellantis, onde ocupou posições de liderança no Brasil e no exterior, incluindo o cargo de diretora global de Digital e Experiência da Fiat, na Itália. Atualmente, também exerce a função de primeira vice-presidente da Associação Brasileira de Anunciantes (ABA).

Mas, ao olhar para trás, ela não enxerga uma carreira cuidadosamente planejada para chegar ao C-Level. "O meu caminho foi muito aleatório. Eu não fui formada para ser CMO. Fui construída para entender o negócio", explica.

Em vez de seguir uma trajetória exclusivamente ligada ao marketing, Alessandra percorreu diferentes áreas das empresas para compreender a operação, a estratégia e a dinâmica do business. Segundo ela, essa experiência acabou preparando o terreno para uma transformação que também acontecia dentro das organizações: o papel do CMO deixou de ser apenas criativo para assumir uma posição cada vez mais estratégica, conectada às decisões de negócio.

Mudança de rota

Curiosamente, Alessandra não aponta uma promoção como o principal divisor de águas da carreira. A mudança mais importante aconteceu quando decidiu abandonar um modelo de liderança que tentava reproduzir para ser aceita.

"Eu percebi que precisava parar de tentar me adaptar a um modelo de gestão que não era o meu. Quando encontrei a minha forma de liderar, baseada em uma firmeza que também acolhe, minha carreira deslanchou."

Segundo ela, durante muito tempo as mulheres aprenderam que, para ocupar posições de poder, precisariam liderar como os homens sempre lideraram. Hoje, acredita que esse é um dos maiores equívocos das organizações.

A caminhada até o topo

Reconhecida em 2025 pelo prêmio Women to Watch, Alessandra afirma que o avanço das mulheres em cargos executivos é inegável, mas está longe de representar uma inclusão plena.

Para ela, muitas profissionais chegam às posições de liderança, mas continuam sendo pressionadas a se adaptar a estruturas construídas sem considerar diferentes trajetórias e estilos de gestão."A gente achou que tinha chegado ao platô. Mas ainda existe um Everest pela frente", reflete.

Na sua avaliação, o desafio agora não é apenas abrir portas, mas garantir que elas permaneçam abertas sem exigir que as mulheres deixem parte de sua identidade do lado de fora. "Esses lugares ainda não pertencem às mulheres. A gente chega, mas muitas vezes precisa se encaixar em um modelo antigo para permanecer."

Credibilidade ainda precisa ser conquistada

Mulher preta, de origem periférica e com formação na escola pública, Alessandra afirma que um dos maiores obstáculos da carreira continua sendo a necessidade constante de comprovar sua competência. "Muitas vezes, se um homem não reforça aquilo que estou dizendo, ou se uma pessoa branca não valida minha fala, ela demora mais para ser reconhecida. Ainda preciso provar minha competência antes mesmo de apresentar minhas ideias", expõe.

Na avaliação da executiva, esse tipo de situação evidencia como os vieses inconscientes continuam presentes no ambiente corporativo, tornando a diversidade um desafio que vai muito além dos indicadores de representatividade.

O legado que deseja construir

Embora tenha liderado projetos de transformação em grandes marcas globais e hoje esteja à frente da construção da OMODA & JAECOO Brasil, Alessandra afirma que seu maior legado não será medido apenas pelos resultados de mercado.

Ela destaca com orgulho os reconhecimentos ligados ao impacto que vem promovendo em diversidade e inclusão — entre eles, a homenagem no Women to Watch e a indicação ao Prêmio Potências, que considera um dos momentos mais simbólicos de sua trajetória.

"Sou uma mulher preta, mas de pele clara. Durante muito tempo senti que não ocupava completamente nenhum dos dois lugares. Ser indicada ao Prêmio Potências foi um acolhimento e reforçou meu compromisso com a diversidade."

Para Alessandra, cada mulher que ocupa uma posição de liderança amplia as possibilidades para quem vem depois. Mas isso só faz sentido se esses espaços também forem transformados. "Quero que outras mulheres saibam que podem chegar, realizar, liderar e transformar. Ainda temos muito trabalho pela frente, mas precisamos continuar construindo esse futuro juntas", conclui.

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