Durante muito tempo, crescer profissionalmente significou, para Mylena Gama, buscar o próximo desafio, assumir novas responsabilidades e avançar na carreira. Jornalista de formação e publicitária por atuação, ela construiu sua trajetória entre comunicação, criação e marketing e, com o tempo, passou a incorporar negócio e mensuração ao seu repertório.
Em determinado momento, a executiva decidiu fazer uma pausa de seis meses. Isso ocorreu antes de sua chegada à Caju, onde está há pouco mais de um ano e hoje é Head de Brand. “Acho que esse foi um dos momentos mais importantes da minha carreira. Eu queria, sim, descansar, mas também queria entender e reorganizar o que o trabalho significava na minha vida e quem eu era profissionalmente sem estar vinculada a uma empresa ou a um cargo”, conta.
Longe da rotina corporativa, Mylena viajou, fez cerâmica, cuidou da casa, leu e estudou assuntos que não tinham relação direta com trabalho. O afastamento também a levou a rever o espaço que a profissão ocupava em sua vida. “Durante muito tempo, o trabalho ocupou um espaço muito grande na minha identidade, e essa pausa me ajudou a entender melhor o quanto da minha identidade vinha da minha profissão e o quanto existia para além dela. Eu gosto muito do que faço e sei que é a forma pela qual contribuo profissionalmente para a sociedade, mas hoje tenho muito mais clareza de que isso não me representa por inteiro”, explica.
A mudança na relação com o trabalho chegou também à liderança. À frente de equipes há cerca de dez anos, Mylena passou por um período de esgotamento que mudou a forma como passou a conduzir seus times. “Hoje, tento ser para as pessoas a líder que eu gostaria de ter em cada fase da minha carreira, trazendo para a liderança os aprendizados dos desafios que eu mesma vivi. Isso também me fez ser muito mais atenta a coisas como limites, prioridades e à vida que existe fora do trabalho”, diz.
Outro aprendizado veio quando passou a trabalhar com a América Latina. Depois de construir sua trajetória no Brasil, precisou liderar reuniões em espanhol e tomar decisões sobre mercados que ainda estava conhecendo. “Foi um exercício enorme de vulnerabilidade, porque eu precisei aceitar que, apesar de toda a experiência que tinha acumulado, naquele contexto eu não sabia. E entender que não saber não diminuía minha capacidade, só significava que eu precisava ouvir mais, perguntar mais e aprender com quem conhecia aquele contexto melhor do que eu”, conta Mylena.
Uma nova fase para a Caju
Quando chegou à Caju, Mylena encontrou uma marca com identidade brasileira e já reconhecida pelo mercado. O desafio era ter maior clareza dos públicos e a diferenciação da empresa. “A Caju sempre teve uma identidade muito própria, brasileira e memorável, mas faltava construir um pouco mais do que vinha antes da execução: entender com mais profundidade para quem estávamos falando, o que essas pessoas esperavam de uma marca como a nossa, onde estava nossa diferenciação e qual narrativa poderia sustentar tudo isso de forma consistente”, explica.
No último ano, o marketing recebeu novas lideranças e a equipe de Brand foi construída praticamente do zero. Agora, a Caju vem se preparando para uma nova etapa. “Se esse primeiro ano foi muito sobre diagnóstico, estruturação e aprendizado, agora quero potencializar o impacto. Fizemos duas grandes campanhas nesse período e aprendemos muito sobre mensagem, criatividade, produção e sobre o que realmente gera impacto para o negócio. O próximo ciclo é transformar tudo isso em mais escala, chegando aos públicos e canais certos e com uma expressão de marca cada vez mais potente”, afirma.
A criatividade é parte dessa estratégia. Mylena cita iniciativas como colocar Zeca Pagodinho em uma entrevista de emprego, contar a história da Caju em um documentário e construir uma casa brasileira em uma feira de negócios marcada por estandes de tecnologia e LED.
“A brasilidade, o acolhimento e o cuidado com a experiência são elementos que nos pertencem, e que estamos constantemente amadurecendo a forma de expressá-los. E existe também um componente cultural importante: temos bastante apetite para experimentar, testar e assumir riscos criativos. Quando identidade e cultura estão alinhadas dessa forma, a marca se torna realmente um asset de negócio, porque é parte da maneira como a empresa consegue se destacar e ser lembrada”, afirma.
B2B na decisão, B2C na experiência
A Caju tem cerca de 70 mil empresas clientes e mais de 1,3 milhão de pessoas usando seus produtos. Essa relação entre quem contrata e quem utiliza o benefício diariamente também influencia as decisões de marketing.
“Acho que o primeiro grande entendimento que tive quando cheguei à Caju foi justamente esse: somos B2B na decisão, mas muito B2C na experiência. Existe uma dinâmica muito interessante nesse mercado, em que o RH escolhe o produto pensando também na experiência que ele vai entregar para as pessoas da empresa. Ou seja, quando falamos da Caju ser aceita em 12 milhões de estabelecimentos, ter 10 categorias de uso ou uma boa experiência no aplicativo, estamos falando com o RH sobre o valor que aquilo vai gerar para os colaboradores, e isso tem um valor muito grande na tomada de decisão”, explica.
A convivência com esse mercado também recuperou uma memória pessoal. Na adolescência, a mãe de Mylena recebia vale-alimentação em papel e entregava a ela quando precisava almoçar fora. Hoje, a executiva ouve histórias de famílias que também compartilham os benefícios e de restaurantes cujo movimento muda de acordo com a aceitação dos cartões.
“Isso mudou meu olhar para marketing porque reforçou a importância de entender o significado que existe por trás de um produto. Quando a gente entende o que um benefício representa para um trabalhador, uma família, um empreendedor ou um RH, a comunicação ganha uma camada de identificação por meio de experiências reais. E é justamente nesse encontro entre uma compreensão mais profunda das pessoas e a criatividade que uma marca consegue encontrar oportunidades de se diferenciar”, afirma.
Ambição sem abrir mão de si
Ao falar sobre mulheres que desejam chegar a altos cargos de marketing, Mylena questiona a forma como o crescimento profissional costuma ser medido. “Eu começaria provocando uma coisa: por que você quer chegar a um alto cargo de marketing? Pergunto porque eu mesma já persegui bastante essa escada de crescimento, e isso foi importante para mim durante muitos anos, mas também me fez pagar alguns preços que hoje eu não pagaria. Acho que chegar a um cargo de liderança pode, sim, ser um objetivo, mas eu gosto cada vez mais de pensar nele como uma consequência de uma carreira bem construída. Dar um passo maior que a perna pode custar caro, inclusive em saúde, e acho que ambição não precisa significar isso”, afirma.
Depois da pausa e das mudanças que fez na própria relação com o trabalho, ela passou a incluir outros aspectos nessa equação. “Eu diria para não abrir mão da ambição, mas também não abrir mão de si mesma para chegar lá. Construir uma carreira com plano, saúde, relações, interesses e uma vida que faça sentido fora do trabalho não diminui a ambição. Para mim, hoje, é justamente o que faz com que ela seja sustentável. Um alto cargo pode ser uma consequência muito boa de uma carreira, mas certamente não é a medida do valor dela”, conclui.